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Canadá ganhou com a Vale multinacional

A compra da mineradora canadense Inco pela Vale em 2006 beneficiou o Canadá. Foi o que o ministro da indústria daquele país declarou ao final da análise dos documentos sobre o negócio, que resultou na aprovação da operação, de acordo com o Investment Canada Actted.

O governo canadense levou mais tempo do que os acionistas da Inco para dar o seu referendo. E só o fez depois de estabelecer uma série de condições à Companhia Vale do Rio Doce. A empresa brasileira se comprometeu a atender a todas elas, mesmo porque não tinha alternativa.

Segundo essas exigências, a Vale aceitou não sujeitar suas operações canadenses a uma redução de pessoal por pelo menos três anos e o número total de empregos nessas operações não poderia ser inferior a 85% dos níveis atuais.

Os investimentos no Canadá seriam expandidos em diversas áreas, incluindo exploração, pesquisa e desenvolvimento, também pelo mesmo período de três anos. Haveria programas de qualificação de aprendizes nativos (os aborígines), de estágio e recrutamento, de educação e de treinamento. E também mais recursos para preservação ambiental no Canadá.

Seria como se nada tivesse mudado em Sudbury, no Estado de Ontário, e Thompson, em Manitoba, onde a Inco tem suas minas.

A oferta de compra da Vale, apresentada em 11 de agosto de 2006, era tão boa que duas concorrentes, a americana Phelps Dodge e a canadense Teck Cominco, se afastaram quase imediatamente.

A proposta de aquisição de todas as ações ordinárias da mineradora, porém, só seria consumada se conseguisse a adesão dos detentores de ao menos dois terços das ações ordinárias (com direito a voto).

Logo, os controladores de 75,66% das quase 175 milhões de ações ordinárias se prontificaram a negociar seus papéis, recebendo 86 dólares canadenses por cada ação, com ganho de 13,3 bilhões de dólares.

Os possuidores das ações ordinárias restantes que seguirem o mesmo caminho ficariam com outros US$ 4,5 bilhões, dinheiro que foi pago praticamente à vista, de uma só vez, para os que aderiram ao prazo definido. O total, foi de US$ 18,5 bilhões (mais de 40 bilhões de reais de então, o dobro do PIB do Pará)

Graças a essa irrecusável proposta, a Vale se tornou a autora da maior aquisição já realizada por uma empresa privada latino-americana no mercado mundial. E controladora integral da Inco, que é a segunda maior produtora de níquel do mundo e a primeira em reservas, com 7,8 milhões de toneladas de níquel contido e jazidas no Canadá, na Oceania e na Indonésia.

Os números decorrentes dessa audaciosa investida são impressionantes, tanto pelo seu valor em si quanto pela repercussão que lhes foi dada pela grande imprensa nacional. De quarta maior mineradora do mundo, a Vale se tornou a segunda maior, atrás apenas da anglo-australiana BHP Billiton.

A consultoria financeira Economática estimou o faturamento anual da Vale em US$ 16,4 bilhões, que cresceria para US$ 21 bilhões com a incorporação dos US$ 4,6 bilhões da Inco. Com esse tamanho, a CVRD subiria 28 colocações no ranking das maiores empresas, passando da 102ª posição para o 74º lugar por receita entre as companhias abertas dos Estados Unidos e da América Latina, segundo o jornal O Estado de S. Paulo.

A empresa brasileira com a melhor colocação nesse levantamento era a Petrobrás, que ocupava a 15ª posição, com US$ 68,47 bilhões. A Vale passou à frente de gigantes, como o McDonald’s, a Bellsouth, a Goodyear e a Coca-Cola.

O então presidente, Roger Agnelli, assegurou:

“A aquisição beneficia todos os envolvidos, a Vale, os acionistas, funcionários e fornecedores da Inco, as províncias e comunidades no Canadá onde ela atua”.

Mas se o negócio foi bom para todos esses personagens, foi mesmo bom para o Brasil? Em particular, foi bom para o Pará, detentor das duas – justamente as maiores – jazidas de níquel de propriedade da Vale em território brasileiro?

Essa era uma questão absolutamente secundária para os promotores do negócio. Todos entraram no canto em uníssono da louvação, como se o que for bom para a Vale se torna, automaticamente, bom também para o Brasil – e não se fala mais nisso.

Essa postura lembrava a famosa frase de Vasco Leitão da Cunha, ministro das relações exteriores do primeiro governo militar pós-64, o do marechal Castelo Branco: “O que é bom para os Estados Unidos, é bom para o Brasil”, disse ele. A gentileza foi retribuída pelo presidente americano Richard Nixon: “Para onde o Brasil for, a América Latina irá atrás”.

Mas nem o governo brasileiro imitou o canadense, submetendo os documentos da transação a uma verificação rigorosa, nem a opinião pública foi ouvida ou cheirada, ao menos os 14 Estados onde a companhia atua. O Pará, na pior das hipóteses, é o segundo mais importante do conjunto. Deverá crescer proporcionalmente mais do que Minas Gerais, que ainda é o primeiro.

Mas nãoem níquel. Nessasubstância, a posição paraense já é preponderante. A Vale, que já era dona da jazida do Vermelho, comprou o Onça Puma, também em Carajás, no sul do Pará, de outra mineradora canadense, a Canico.

Com essas duas minas e mais uma do Piauí, podia tornar o Brasil autossuficiente nesse minério e ter alguma grandeza internacional. Cinco anos antes, esse era um setor com pouca capacidade de atrair investimentos. O que está havendo agora é uma mudança radical.

Para poder dar o salto para o primeiro lugar, a Vale precisou mudar de camisa. A área de níquel passa a ser competência da CVRD Inco. Não é de estranhar que a ex-estatal brasileira passasse a utilizar o nome da empresa canadense, que tinha uma marca estabelecida e conhecimento consolidado.

Mas daí a manter sua sede em Toronto, Ontário, no Canadá, comandada por um diretor de operações e a maior parte da administração canadense, vai uma grande distância (e não é só geográfica).

Em matéria de níquel, para poder se tornar uma multinacional, a CVRD deixou de ser nacional. Pelo peso das minas, tornou-se, na verdade, canadense.

Segundo suas projeções, a produção de níquel iria alcançar 400 mil toneladas, sendo 300 mil toneladas no Canadá e 103 mil no Brasil, num mercado consumidor mundial estimado em 1,5 milhão de toneladas naquele ano. A produção da Inco era estimada em 250 mil toneladas.

É a partir dessa perspectiva que a Vale iria administrar as jazidas de Carajás, que têm grande relevância nacional. A presença internacional da empresa, que era de 2%, passou a ser de 30%, proporção inédita em relação a qualquer outra corporação privada brasileira. A Vale ficou, de longe, a mais internacionalizada. Uma verdadeira multinacional.

Se a operação reafirmava os aspectos positivos do estilo ousado de Roger Agnelli, disposto a passar de um extremo a outro tão rapidamente, também revelava o outro lado desse modo de agir: o seu elevado grau de risco. O risco faz parte do negócio e ninguém conseguirá crescer, ao menos dessa forma, sem assumi-lo.

O problema era: quantos sabiam exatamente em que consistia esse risco? Numa iniciativa empreendida com tal rapidez e com tão pouco controle por parte do governo e da opinião pública brasileira, o que estava faltando era exatamente o domínio sobre o verdadeiro enredo da ópera. Ou seu libreto integral.

As agências de risco e as instituições financeiras avalizaram o negócio, mas seus comunicados sugeriam que o fizeram sob certas reservas e garantias. Iriam bancar – e generosamente – a transação, mas provavelmente com uma compensação mais generosa ainda (ou mesmo leonina).

Ao anunciar a compra, a Vale informou que possuía uma linha compromissada de financiamento de dois anos com quatro grandes bancos: os suíços Credit Suisse e UBS, o holandês ABN AMRO e o espanhol Santander, que formaram um pool de instituições financeiras, dispostos a oferecer até US$ 34 bilhões para a empresa brasileira utilizar.

O financiamento, de longo prazo, seria fechado em 18 meses. Mas deveria incluir poupança nacional. Para isso, o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) foi chamado a comparecer.

A Vale assegurava que, além do aporte de aproximadamente US$ 2 bilhões do seu caixa, não venderia qualquer outro item do seu patrimônio para gerar mais dinheiro e não prejudicar o plano de investimentos que já definira. Recorreria mesmo a dinheiro alheio.

Mas logo em seguida à aquisição protocolou junto à Comissão de Valores Mobiliários pedido de registro de distribuição pública de debêntures simples, não conversíveis em ações, no valor de 5 bilhões de reais. O montante apurado com a colocação desses papéis seria utilizado para amortizar parcialmente a dívida resultante do empréstimo-ponte com o grupo de bancos

 Dessa maneira, a empresa preservaria a “vida média” da sua dívida “em nível próximo ao registrado antes da aquisição das ações da Inco, a manutenção de um perfil de endividamento de baixo risco e a minimização do custo ponderado do capital, assegurando desta forma a consolidação de sua boa reputação nos mercados financeiros globais”, segundo o comunicado distribuído na ocasião.

Esse era o ponto mais delicado para as agências de risco. A dívida da CVRD, que estava próximo de seis bilhões de dólares, quadruplicou com a compra financiada da Inco. O valor correspondia então a dois anos e meio de faturamento da empresa, considerando o resultado recorde do exercício anterior, o de 2005. A grande Companhia Vale do Rio Doce, de fato, entrava numa nova fase da sua história de mais de 60 anos.

Um dos principais efeitos da incorporação da Inco foi a redução da dependência da empresa dos produtos ferrosos, de 74% para 56% das suas receitas globais, prevenindo-se para uma possível queda de preços do minério de ferro no mercado internacional.

Isso num momento em que o valor do níquel (que passaria a responder por 20% do faturamento da empresa, em segundo lugar) chegava ao ponto mais elevado em 20 anos, de quase US$ 30 mil por tonelada (500 vezes o valor do minério de ferro), com a possibilidade de se manter nesse patamar por mais tempo.

A Inco obteve o maior lucro da sua história, de US$ 653 milhões, justamente no último trimestre antes da efetivação da venda, entre julho e setembro de 2006.

Com esse movimento, a presença internacional da CVRD cresceu 30 vezes. Mas a empresa ingressou também num cenário de sombras, que só ela podia iluminar completamente. Mais uma vez, a sociedade foi surpreendida por esse movimento de cena.

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