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A conta do bilhão em Carajás

Escrevi este texto para registrar, na edição 395 do Jornal Pessoal, da 1ª quinzena de julho de 2007, um momento histórico: a lavra de minério de ferro em Carajás atingia a marca de um bilhão de toneladas extraído e quase integralmente exportado.

           A Companhia Vale do Rio Doce começou a comemorar, no mês passado, uma façanha que só se completará em outubro: a produção de um bilhão de toneladas de minério de ferro na mina de Carajás, no Pará. A marca foi alcançada com menos de 23 anos de operação, graças a uma extração média de 45 milhões de toneladas por ano (começou com menos da metade desse valor). Se a mina tivesse funcionado durante esse período com a capacidade máxima de projeto, de 25 milhões de toneladas, o primeiro bilhão só seria alcançado em 40 anos, ou 2025.

          Há, portanto, motivo para tanta comemoração. Haverá ainda mais razões quando o segundo bilhão for atingido. Se a escala atual de produção, em vigor a partir deste ano, que passará de 85 milhões para 100 milhões de toneladas, for mantida, Carajás chegará a 2 bilhões em 10 anos – em menos da metade do tempo do 1º bilhão. Acontece que a partir de 2010 amina já estará funcionando na bitola de 130 milhões de toneladas, respondendo por metade de toda produção de minério de ferro da CVRD, a maior vendedora desse produto no mundo[essa meta foi postergada para 2016].

          São números espantosos. As jazidas de Carajás, com 18 bilhões de toneladas, podiam durar 800 anos se o máximo de produção que era previsto inicialmente se mantivesse. Na média do primeiro bilhão, o tempo de vida útil cairia à metade, em valores redondos. No ritmo que a mina terá a partir de 2010, esse prazo baixará para 180 anos. Ou seja, mais 130 anos a partir do momento em que começasse a produzir 130 milhões de toneladas a cada ano. Ou, na verdade, um tanto menos: seria preciso descontar desse total o minério já extraído. Talvez apenas mais um século.

          Aquele fantástico pacote de hematita compacta, com600 metrosde altura, espalhando-se por mais de 400 mil hectares de área, inteiramente lavrável a céu aberto (sem precisar, portanto, de dispendiosa mina subterrânea), que parecia infinito, inesgotável, não será mais do que história para os nossos bisnetos.

          Restarão então algumas perguntas ansiosas pelas respostas: fizemos por merecer o melhor minério de ferro que já existiu na crosta terrestre? Tiramos dele os benefícios que ele nos podia proporcionar? Fomos inteligentes no seu aproveitamento? Pensamos a longo prazo, já que minério não tem segunda safra, ou agimos apenas considerando o imediato?

          À euforia da CVRD, com tantas marcas históricas alcançadas e recordes quebrados ao longo de 10 anos como empresa privada, a indicar o acerto da administração Fernando Henrique Cardoso em privatizá-la, corresponde a inquietação dos que questionam se têm motivos de fato para se incorporar a esta festa. A cada vez em que faz o balanço do exercício findo e apresenta seus planos para o ano em curso, a direção da Vale esgrime números grandiosos.

          São sempre bilhões e bilhões de reais ou dólares, centenas e centenas de empregos, rendas e salários, trens e vagões, usinas e estradas. Agora seu valor de mercado chegou a 100 bilhões de dólares, tornando-a a segunda maior mineradora do mundo. À sua frente está apenas a anglo-australiana BHP-Billiton.

          Encerrado o foguetório verbal, porém, fica a sensação de que a participação do distinto público restringe-se à festa de aniversário, ao vernissage, à avant-prémière, à admissão com data certa e duração curta. Na hora de distribuir os dividendos, a reunião é em circuito fechado.

          É impossível não deixar de reconhecer e admirar a capacidade empreendedora e o tirocínio de dezenas de pessoas que dirigiram – e dirigem ainda – a companhia, numa sucessão aberta pelo engenheiro Eliezer Baptista.

          Foi ele que definiu um rumo, o do Oriente, para viabilizar Carajás depois que os americanos da United States Steel se retiraram da associação com a CVRD, iniciada em 1969, dois anos depois daquele 31 de julho de 1967, que marca a descoberta da jazida, em outra data honorável, cujos 40 anos serão devidamente comemorados.

          A USS, então a maior siderúrgica do mundo, achou que podia se manter na sua mina da Venezuela, aonde se estabelecera em 1954, e esperar por um novo chamado dos ex-parceiros compulsórios (por exigência do governo militar, incomodado com o fato de uma multinacional ser dona exclusiva de tamanha riqueza estratégica). Afinal, a engenharia econômica de Carajás lhe conferia vantagem competitiva exatamente pela abertura que propiciaria ao Brasil do mercado consumidor dos Estados Unidos, vedado até então.

          Mas a equação de Eliezer Baptista já estava armada em torno do Japão, que se tornaria o principal cliente de Carajás (e da fábrica de alumínio da Albrás). Para fechar as contas, a Vale precisava deslocar o concorrente australiano, que estava muito mais perto, porém dispunha de um minério bem mais pobre.

          Só pureza não bastava: a Vale azeitou a logística e criou um eixo de exportação invejável, através de ferrovia, até o porto da Ponta da Madeira, em águas profundas, no litoral do Maranhão.

          O minério de Carajás chegou barato ao Japão, garantindo 15% da demanda dos altos-fornos da sua siderurgia. Quando o gigante chinês despertou, provocando o maior impacto mundial da era moderna (a China produz um terço do aço do mundo), a CVRD já dispunha de um esquema afinado para se habilitar a fornecer volumes crescentes, numa escala que já chega a 40 milhões de toneladas, superando o Japão.

          A triplicação e quadruplicação do preço do minério, que por largo tempo estagnou em torno de 20 dólares, é função do enorme e insuspeitado incremento da demanda chinesa.

          Por causa dessa fome ainda insaciável (e pendente de controle e redução) de minério para atender à desenfreada expansão da produção de aço, em2003 aVale deu um golpe antes impensável: reajustou sua principal mercadoria em 71,5%. E todos tiveram que pagar. Os aumentos seguintes não foram tão notáveis assim, para não dar um nó no mercado, mas continuaram a ser impressionantes.

          O resultado: exercício após exercício, a Vale fechava seu balanço quebrando recordes de produção, faturamento, lucro líquido e distribuição de dividendos. Em 2005 foi a empresa que mais dividendos distribuiu no mundo inteiro.

          Quem aplicou em papéis da Vale ganhou quase 10 vezes mais do que quem investiu em caderneta de poupança nos últimos 10 anos. A compra do controle acionário custou, em 1997, 3,3 bilhões de reais. Só o lucro líquido de 2005 foi quatro vezes e meia maior.

          Como seus acionistas já tiveram de volta o dinheiro aplicado várias vezes (a uma taxa média de 40% desde a privatização), a empresa incrementou no ano passado seu porte: incorporou a segunda maior produtora e dona da maior jazida de níquel do mundo, ao custo de 19 bilhões de dólares, em dinheiro vivo, para liquidar os demais pretendentes ao negócio. Foi o maior que uma empresa baseada na América do Sul já realizou em todos os tempos.

          A CVRD há seis anos está sob o comando forte de Roger Agnelli [que ficaria no cargo por mais quatro anos], o mais impetuosos dos executivos brasileiros (pulverizou Benjamin Steinbruch dos anais da empresa). Nesse período a empresa ficou cada vez mais forte (embora razoavelmente endividada) e mais (preocupantemente) internacionalizada. Com a Inco, fica mais diversificada: a área de metais não-ferrosos já é responsável por 42% do seu faturamento) Mas e o Pará?

          O Pará, ao que parece, é um detalhe nessa história, embora sem ele não houvesse parte (e a parte melhor, para a companhia) dessa história. O Pará está à margem, está fisicamente atrás da porteira que controla ou simplesmente veda o acesso às minas (que, como se sabe, não são apenas de minério de ferro: incluem neste momento manganês e cobre, mas têm ainda níquel e ouro, em proporção crescente).

          O caos humano – social, étnico, fundiário, policial – fica do lado de fora. Do lado de dentro, a ordem, o compromisso, a determinação. Um universo protegido pelas unidades de conservação, que circundam as minas. Foram criadas pelo governo federal, por inspiração da CVRD, que não pôde comprar a superfície do solo que contém as rochas mineralizadas.

          A empresa proclama que o Pará está muito bem e ficará ainda melhor. Está apostando muitas fichas no Estado. Seu plano de investimento é várias vezes superior ao do governo do Estado, que se encolheu comparativamente ao porte da mineradora.

          Só para dar uma ideia: um quarto do dinheiro que a empresa gastou nos últimos quatro anos em suas ferrovias e terminais portuários (o equivalente a dois bilhões de dólares) daria para concluir, com folga, o sistema de transposição do Tocantins, restabelecendo a navegabilidade do rio, interrompida pela barragem da hidrelétrica de Tucuruí há 23 anos.

          Mas a CVRD está sob o guarda-chuva leoninamente protetor da Lei Kandir, que a isenta do pagamento de imposto por exportar, que é quase só o que ela faz no Pará, produtos semielaborados. Seu efeito germinativo no Estado é desproporcionalmente pequeno diante do volume enorme de riquezas que ela movimenta no Pará.

          Gastará 2,5 bilhões de dólares nos próximos dois anos para elevar a produção de minério de ferro para 130 milhões de toneladas e colocá-la no porto de embarque, na ilha de São Luís, praticamente duplicando a ferrovia de Carajás. Como a expansão não chegará a tanto, provocou especulação sobre sua intenção de construir um mineroduto, o maior do mundo, com quase900 quilômetrosde extensão (seis vezes o tamanho dos minerodutos do caulim no Pará). 

          A empresa está disposta a esticar sua imaginação e seu capital até o limite extremo para colocar mais minério paraense no mercado mundial, mas não move uma palha no sentido de transformar minério de ferro em aço dentro do Estado.

          Não só agregaria mais valor ao produto como teria menos volume a transportar nos comboios, que terão sua capacidade atual aumentada de 220 para 320 vagões no próximo ano, constituindo o maior trem de minério do mundo. Quase um terço do minério transportado é estéril, descartado somente na siderurgia.

          É certo que com uma tonelada de ferro se aproximando de 90 dólares, aritmeticamente falando é mais atraente vender minério. Mas por quanto tempo? Em que nível de dependência de dois clientes, China e Japão, responsáveis pela compra de mais da metade da produção de Carajás, principalmente da China? E – o que nos toca mais de perto – por que privar o Pará de usufruir essa fase de vacas gordas?

          Se a Vale só pensa nela, está na hora de o Pará pensar na parte que lhe cabe nessa sucessão de festas de recordes. Seja na forma de uma compensação honesta e devida como numa sobretaxa sobre o lucro, a partir de certo limite, mesmo que essa compensação precise vir através de uma nada fácil legislação ou de uma terrível guerra política. Já está na hora de os paraenses se aperceberem de uma coisa: essa enorme e valiosa riqueza que está indo embora, numa escalada crescente, não voltará. Nunca mais.

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Discussão

5 comentários sobre “A conta do bilhão em Carajás

  1. Estamos em Junho de 2012, o valor do minério passou de 100 dólares, a ferrovia está sendo duplicada e é possível que minha geração veja o final da história como sendo o maior buraco executado pelo homem em um só local. Pará…! Eis a sua herança…!

    Publicado por GERALDO FABIO EVANGELISTA RABELO | 20 de junho de 2012, 3:24 pm
  2. Caro Geraldo: o que mais me espanta é a desinformação e insensibilidade geral sobre esse imnportantíssimo capítulo da história do Brasil. Não é só do Pará e da Amazônia. Talvez seja maior do que a história da exploração do ouro das Minas Gerais, no Brasil Colonial. É muitas vezes maior do que a do manganês do Amapá. E a nossa geração recebeu o bastão da geração anterior com o compromisso de não permitir que enredo tão miseravelmente colonial se repetisse. E está em pleno curso diante dos nossos olhos. Olhos do pior dos cegos: o que não quer ver.

    Publicado por Lúcio Flávio Pinto | 20 de junho de 2012, 7:01 pm
  3. Até quando persistirá essa relação desigual e aviltante da Vale conosco? Até produzirmos o 3º bilhão? Até a exportação da última tonelada de minério de ferro decretar o fim de Carajás?
    Excelente e incansável trabalho o seu, de tentar abrir os olhos e a mente dos paraenses.
    Espero que saibamos reconhecer tamanho esforço e principalmente que saibamos utilizar essas informações e conhecimento que você tão generosamente nos oferece.
    Obrigada e que Deus te proteja e te abençoe sempre.
    Edineide.

    Publicado por Edineide Coelho | 20 de junho de 2012, 10:49 pm
  4. já lançaram a maquete com um piscinão onde hoje é a mina central… achei bacana.

    Publicado por Janjão | 24 de junho de 2012, 6:27 pm
  5. Pela notícia que li hoje não vai levar mais 23 anos para a Vale produzir o 2º milhão. Abaixo a íntegra da notícia.

    ..RIO DE JANEIRO, 27 Jun (Reuters) – A Vale deu o primeiro passo de licenciamento ambiental para um bilionário projeto de minério de ferro localizado na serra sul de Carajás, no Pará, com início das operações previsto para 2016.

    A mineradora brasileira, maior produtora global de minério de ferro, informou nesta quarta-feira ter recebido licença prévia ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) para seu projeto Carajás S11D.

    O projeto, o maior da história da Vale, tem investimento estimado 8 bilhões de dólares para desenvolvimento de mina e usina de processamento, e o início de operações está programado para a segunda metade de 2016.

    “A licença prévia faz parte da primeira fase de licenciamento do empreendimento e atesta sua viabilidade ambiental”, afirmou a Vale em fato relevante.

    A capacidade nominal do projeto é de 90 milhões de toneladas métricas anuais de minério de ferro.

    O passo seguinte no processo de licenciamento ambiental é a obtenção da licença de instalação (LI), o que viabilizará o início das obras de construção da usina.

    Na região de Carajás já está a principal mina de minério da Vale, com produção de 109,8 milhões de toneladas em 2011.

    A mineradora produziu 322,6 milhões de toneladas de minério de ferro no ano passado.

    As ações da mineradora operavam voláteis, perto de uma estabilidade, por volta das 11h40.

    “O mercado se importou sim… A notícia é muito positiva, a licença acaba permitindo o projeto, mas com o mercado azedo, ela acaba cedendo por alguns momentos”, disse o estrategista-chefe da SLW Corretora, Pedro Galdi, comentando o fato de o papel não registrar um alta expressiva.

    O S11D será acompanhado por investimento em infraestrutura de logística estimado em 11,4 bilhões de dólares, o que permitirá, após sua conclusão, a movimentação de 230 milhões de toneladas métricas anuais de minério de ferro.

    “Carajás oferece a melhor plataforma de crescimento de minério de ferro no mundo, combinando substancial volume de reservas provadas e prováveis, 4,239 bilhões de toneladas métricas, e baixo custo operacional resultante da alta qualidade do depósito mineral e do eficiente sistema logístico para transporte a longa distância”, afirmou a mineradora em nota.

    Segundo a companhia, o projeto S11D estabelecerá base para a construção ao longo do tempo de novas plataformas de criação de valor, dando sustentação à manutenção no longo prazo da liderança da Vale no mercado global de minério de ferro.

    “O minério de ferro de alta qualidade de Carajás apresenta menores custos operacionais e valor em uso superior para a indústria do aço, pois implica em maior produtividade e menor consumo de combustível e emissões de carbono, o que… contribui para a sustentabilidade ao longo da cadeia produtiva”, afirmou a Vale.

    (Por Sérgio Spagnuolo e Roberto Samora)

    e agora?
    ..

    Publicado por Marcos Natividade | 27 de junho de 2012, 4:54 pm

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