//
você está lendo...
Todos os Posts

À espera das respostas

Houve um perídio de democracia constrangida ou reprimida no Brasil entre a deposição do presidente João Goulart, em abril de 1964, e a edição do Ato Institucional nº 5, no final de 1968. Qualquer um podia ser surpreendido por um ato de força do governo, mas ele costumava ser remediado (ou, pelo menos, era remediável). O poder judiciário funcionava com certa liberdade e bastante altivez para impedir naquele momento o que viria depois: a ditadura.

Para estabelecer desnorteante contraste com os tempos atuais, basta lembrar, que o presidente do Supremo Tribunal Federal, ministro Ribeiro de Souza, se recusou a atender ao convite do presidente da república, o marechal Castelo Branco, e fazer presença na solenidade de assinatura do segundo Ato Institucional, um ato de arbítrio do executivo com o qual o poder judiciário não podia ser cúmplice sem trair sua finalidade.

Para os jornalistas, o limite da liberdade era o gabinete do dono do jornal. O mando numa empresa jornalística se equipara ao do chefe do poder executivo. Por isso, nunca se sabe quem é mais nocivo quando decide restringir a liberdade de informação. Ao divergirem, ganha a sociedade. Quando se entendem, o que constitui a regra desse relacionamento, a democracia sai perdendo.

A margem de autonomia para escrever foi grande entre 1964 e o AI-5, de 13 de dezembro de 1968. Podia-se colher informações junto a fontes diversas sem grande esforço. Mais difícil um pouco era veiculá-las. O terreno para a publicação ainda era vasto. O controle da informação era falho.

Quando ele se estreitou, com a hipertrofia do poder estatal, sobretudo nos anos 1969/1977, foi preciso encontrar novas fontes de informações, seguras o bastante para resistir à ação da censura estatal e, depois, às intimidações diretas e processamentos perante a justiça, já então desnaturada.

Descobri duas fontes preciosas. Uma, o Diário Oficial, o mais confiável veículo de expressão do poder público (a imprensa costuma ser muito mais áulica). A outra: os balanços das empresas. Ambas são fontes codificadas de informações. Não basta abrir suas páginas e lê-las para compreender.

É preciso aprender a lê-las para aproveitar tudo o que trazem e ir além, na interpretação dos fatos e na sua contextualização. Essa habilitação requer conhecimentos contábeis, financeiros, econômicos, jurídicos e administrativos. Mas vale a pena aprender.

Com o fortalecimento da sociedade na volta à democracia, o conteúdo das fontes se aprimorou. A digitalização e a rede de consulta em tempo real pela internet melhoraram ainda mais o uso das duas bases de dados.

Ao mesmo tempo, processá-las adequadamente passou a demandar mais tempo e qualificação. Grande parte dos jornalistas tem preferido, ao invés de acessar as fontes primárias, se informar através do material de divulgação (os press release) das empresas e do poder público. O leitor-cidadão é que sai perdendo.

Considerando tais circunstâncias, criei este blog convicto de que ele pode ser instrumento de uma obra coletiva vital. Pedi aos profissionais especializados para analisar os balanços da Vale e apresentar os resultados do seu esforço, que é precioso.

Também convidei quem trabalha na empresa ou vive em locais onde a ex-estatal atua para darem seu testemunho sobre o que está acontecendo e presenciam. Às vezes essas pessoas – em Parauapebas ou Itabira, em Vitória ou São Luiz do Maranhão – não se apercebem de estarem vivendo um momento histórico, do qual podem se tornar personagens ou referências.

Esta é a contribuição mais importante que o blog quer acolher. Nada de julgamentos no vazio ou juízos de valor desacompanhado das demonstrações.

Esperamos, até o dia 15 de maio, dispor de ricos depoimentos e consistentes análises para nos permitir avaliar a história destes 15 anos de privatização da Vale, suas perspectivas e a forma de participação da sociedade para melhorar os rumos da empresa. Tornando-a realmente um instrumento do desenvolvimento perene do país e não uma fantasia de riqueza efêmera.

Anúncios

Discussão

Um comentário sobre “À espera das respostas

  1. O povo brasileiro, tem memoria curta. Não se lembra da visita da madame inglesa ao Brasil., pregando , privatização. Na epoca, o ouro extraido de serra pelada, era comprada pela cvrd, atraves da caixa economica federal. Antes da privatisação, a cvrd contratou uma firma americana para fazer um inventario de seu patrimonio. No inventario, não foi divulgado o ouro comprado dos garimpeiros de serra pelada. foi divulgado na epoca, que o ouro que a cvrd comprou, estava guardado na casa da moeda.Quando se fala na visita da madame inglesa ao Brasil, Não foi apenas uma visita diplomatica. Na verdade, A madame esta preocupada com a desvalorização da libra de seu pais, caso o Brasil, vinhece acunhar moedas com o ouro que a cvrd, comprou dos garimpeiros de serra pelada.

    Ivan G. Barboza

    Publicado por Ivan Gomes Barboza | 16 de abril de 2012, 8:15 pm

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: